Cidades COLUNA SOCIAL

Celebrar o Dia da Consciência Negra

Celebrar essa data é erguer um altar onde memória de paixão e ascese de esperança se abraçam pela construção da fraternidade e da igualdade.

18/11/2021 09h12 Atualizada há 1 semana
318
Por: Gilson Oliveira
Crédito: revista Super Interessante
Crédito: revista Super Interessante

Celebrar o Dia da Consciência Negra

A vida ferve na cuia do tempo

Quem espera a dor não viaja no vento

Ranquei a hora do chão do momento

Nasci de manhã, o sol veio olhar.  

(Milton Nascimento, Coração Brasileiro)

 

Em 20 de novembro, o calendário realça o Dia Nacional da Consciência Negra para ser celebrado como memória e ascese. Foi criado em 2003 como efeméride incluída no calendário escolar — até ser oficialmente instituído em âmbito nacional pela a lei nº 12 519, de 10 de novembro de 2011. Trata-se de feriado em mais de mil cidades em todo o país e nos estados de Alagoas, Amazonas, Amapá, Mato Grosso e Rio de Janeiro através de decretos estaduais. Nos demais estados, a responsabilidade é de cada câmara de vereadores, que decide se haverá o feriado no município.

O importante é que a ocasião traga reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. Nesse dia, em 1695, morria Zumbi dos Palmares, um dos maiores líderes negros do Brasil, que lutou pela libertação do povo contra o sistema escravista. Depois de reiterada resistência, foi decapitado pelas forças coloniais.

Pende impagável dívida com o continente africano e seus descendentes no mundo inteiro. Povo considerado inferior, subjugado, não civilizado, como sói acontecer com quem olha o diferente de soslaio, olhar enviesado, de riba pra baixo. Essa condição desumana tem sido enfrentada, ao mesmo tempo em que os valores desse povo são reafirmados com grandes lutas armadas ou não.

Celebrar essa data é erguer um altar onde memória de paixão e ascese de  esperança se abraçam pela construção da fraternidade e da igualdade. Um altar sempre tem paixão e cruz, dor e sangue derramado, mas tem também um horizonte de possibilidades do novo. Os gestos heroicos denunciam a maldade e anunciam o amor que deve inundar o mundo. Um altar enxuga o pranto e abre o sorriso no peito.

Um altar é lugar de comida rara que rememora os laços afetivos, revive a grandeza da etnia entre os comensais, relembra o testamento e o legado dos nossos pais, nossos mártires, profetas, para que não abandonemos a linha da defesa dos valores, direitos e dignidade de nossa gente.

Celebrar o 20 de Novembro denuncia que não se pode matar. Vidas importam. Vidas não podem ser sacrificadas nas ruas, nos guetos, nas favelas, nos cortiços, nos sertões onde resquícios de escravismo desafiam qualquer consciência. Vidas não podem ser chutadas por fardados, armados ou não. O 20 de Novembro denuncia que não se pode dizimar cultura, identidade, etnia, história, nem subjugar nenhum povo como força de trabalho, tração animal, propriedade privada.

Celebrar vitórias, e foram tantas! Dimensionar as dores, e são tantas! Enxergar as possibilidades no horizonte, e são tantas! Na linha do horizonte ampliamos nossos sonhos.  “Eu tenho um sonho”, celebrava  Martin Luther King.  

“Da experiência de um extraordinário desastre humano que durou demais, deve nascer uma sociedade da qual toda a Humanidade se orgulhará”, disse Mandela em seu discurso de posse e acrescentava:

Chegou o momento de sarar as feridas.

Chegou o momento de transpor os abismos que nos dividem.

Chegou o momento de construir.

O sol nunca se porá sobre um tão glorioso feito humano.

Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos, Jesus falou, enaltecendo todas as lutas e memórias de entrega pela libertação de todos os povos. Os altares e os sonhos de Jesus e do povo negro se unem na defesa da vida. Nada mais justo do que fazê-lo, nesse momento, na linguagem e no simbolismo das ricas tradições e linguagens africanas.

Valeu a pena? Sim, se os horizontes permanecerem abertos e o sol não se puser sobre um tão glorioso feito humano, seja no Calvário, seja em Palmares ou na prisão de Robben Island.

Viva a nossa consciência! Temos consciência?

7 comentários
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.