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Não sei se vivi o que devia. As podas me sorveram energia. Nem sei se nasci ou se escapei.

22/11/2021 08h33
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Por: Gilson Oliveira
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Eu vou pra onde a estrada levar

Cantador, só sei cantar

Eu canto a dor

Canto a vida e a morte, canto o amor

(Dori Caymmi, Cantador).

 

 

A poeira nos encobrindo, o caminhão de mudança indo, um tempo ruim de muitas partidas advindo.

Outros seguiriam a sina, pássaros batendo asas, o abandono das terras e suas  raízes, levando coisas e esvaziando casas.

O vazio dos campos e currais, da sombra agora inútil dos bambuzais, da ausência das porteiras e seus rangidos colossais. 

Vazios os corações separados por um sempre imensurável. Um tempo de êxodos sem destino, ruindo o sonho irrealizável.

Cada qual se arrancava e se arranchava onde pudesse. Tempo de fome, custo de vida sem limite. Pouco trabalho nas metrópoles, insegurança, cada qual da carestia se defendesse.

Diluídos na imensidão da massa humana, nas ondas que se revezam e nunca se acalmam na areia. Não trazem de volta as vidas submersas no sem nome da peleia.

Partir. A estrada uma ferida aberta. E tu também te foste de todos os lugares, de todos os encontros, de todas as palavras.  

Restaram sombras cada vez mais sombrias. Fantasmas espreitando de um tempo morto. Sorrisos se exilaram em terras distantes a não permitir abraço e aconchego.

A produção da existência te afogou no mar bravo da cidade grande, essa miséria eterna. Procura sem fim pelo que não há, que o tempo incinerou no esquecimento.

Saudade de teu sorriso claro como o sol espraiando claridade. Mas te perdeste também na sina que expulsa toda gente de algum lugar para lugar algum.

Partir. Foi o que também fiz um dia. E retornei para encontrar desolação e ausências. Saudade plantada onde antes se nascia.

O carro de boi apodrecido, as frondes desfolhadas não mais suportam as revoadas. Tudo se despetalou em retiradas.

Não sei se vivi o que devia. As podas me sorveram energia. Nem sei se nasci ou se escapei. Nascer é sorte, sobretudo quando se é quase o fim da prole.

Há um recomeçar de rijeza na travessia. Pra quem parte e, sobretudo, pra quem fica, esperança de um novo tempo na terceira margem.

Nascer ou escapar é acostumar. Sem dar conta do tamanho do invisível vazio. Ou do pleno amor vivido na alma dos que, partindo, permanecem.

 

 

 

 

 

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