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Expressão de pertencimento: ter um lugar para voltar, ter gente para falar com aconchego, alegria e acolhimento.

27/11/2021 11h13
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Por: Gilson Oliveira
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“Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não eu canto”. (Belchior, Divina comédia humana)

 

Voltamos tantas vezes. Sempre emoção nova ao voltar. Regressos depois de longas ausências, ou mais amiúde, ao lar, à terra, aos amigos, aos amores. Na noite em que se prepara o retorno não se dorme. Imagina-se ansiosamente o reencontro com tanta gente e com tanta coisa. Gente e coisas, pessoas e lugares que nos imprimem um caráter, sacramento de pertença. Colamos nas paredes da alma as suas imagens para sempre. Temos raízes afetivas e isso é tudo.

O caminho de volta é sempre novo, como se novas emoções emoldurassem cada pedaço de estrada que vai passando. Trajeto adornado de motivos espalhados desde sempre, mas com novas motivações de cores, odores e sabores diferentes. O coração acelera à medida em que se aproxima a chegada. As serras tomam um azul único plantado nas retinas, como se uma lente colorisse de inusitados tons das sensações de cada retorno.

Se se avisava de antemão a chegada, havia quem nos encontrasse no ponto e ajudasse a carregar a mala, e se não houvesse bagagem, era prazer de antecipar o encontro e fazer junto o último percurso, antecipando as notícias, atualizando os últimos acontecimentos: Fulana vai se casar! O compadre esteve doente, mas melhorou. A porca pariu treze leitões! As laranjas estão maduras, vai gostar. Amanhã vai ter baile na casa de Zé Pereira, você vai? Beltrana perguntou se você viria mesmo!

E com isso, se avistava a fumaça passando pela chaminé e se contorcendo como se dançasse ao vento, ouvia-se o latido dos cães, o cacarejar dos galináceos na campina, o mugir do gado, o balir das cabras, uma festa além da gente. Uma orquestra da natureza, regida por uma mão invisível, saudava a volta.

Abraços, mil perguntas ao mesmo tempo, sorrisos longos e a mesa posta, às vezes não havia mesa, era a beira do fogão, o café com broa. Sentava-se para ouvir e falar, refazer com calma as perguntas, pedir notícias detalhadas e receber as recomendações de quem ficou longe.

Expressão de pertencimento: ter um lugar para voltar, ter gente para falar com aconchego, alegria e acolhimento. Voltar pra casa: saborear a convivência, matar a saudade e renascer da raiz.

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