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Depois da Enchente

Vejo que se faz como se fez no passado: comprimiram as margens, aterraram os córregos, impedindo o cheiro podre das sobras. Como se riachos não tivessem estética.

13/01/2022 09h12 Atualizada há 2 semanas
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Por: Gilson Oliveira
Foto: G1. Globo
Foto: G1. Globo

Depois da Enchente

Passo pelas ruas e vejo a ponte danificada, as crateras se agigantarem pelo asfalto, os deslizamentos engolindo os carros, a gente assustada.

Vejo os homens de amarelo lavando as vias, os guardas interrompendo o tráfego, o campo de um milhão alagado, a rua dividida por canteiro separando a água, a via de mão única, agora de mão dupla, autoridades dando entrevistas em série. Tudo muda!

Vejo os loteamentos despejando lama e o rio acelerado, lambendo as margens como quem diz: não tenho culpa, sou vítima.

Meninos, catávamos tanajura, inventávamos barcos, corríamos pelo campo ensopado, seguindo tatus que saíam das tocas e fuçavam para abrir outras, se valendo da terra molhada.

Pouco depois, iscávamos os anzóis para fisgar bagres flopando na água suja. Era bom ser menino depois da chuva.

Vejo máquinas loteando morros para fechar as entradas com muros de condomínio. Berlim é aqui. Em todo lugar é Berlim. Muros visíveis ou não.

Vejo que os construtores de bairros com ou sem muros fecham os olhos para quem está abaixo, com os córregos e riachos.  Alcançam licenças fáceis, vão levando de levada, licenciadores que se virem depois para lavar as calçadas e refazer casas e talvez, lamentar vidas perdidas. 

Vejo no jornal a licitação para erguer prédio de um Hemominas bem onde pulsa a massa humana, onde transita o povo, onde já é saturado de prédios em cima de córregos, onde as vias principais se enchem de água a cada chuva, e ninguém reclama. A culpa será da chuva. Não haveria outro lugar menos dramático?

Vejo que se faz como se fez no passado: comprimiram as margens, aterraram os córregos, impedindo o cheiro podre das sobras. Como se riachos não tivessem estética. Carregassem lepra e tivessem que ficar isolados em leprosários invisíveis sob o asfalto.

Só tínhamos medo da chuva porque nossos telhados não suportavam o vento que viesse junto, nossas cabeças eram alvos fáceis. Enfiávamos debaixo da cama, enquanto se acendia palha benta para nos proteger.

Mas agora, na cidade? Cortam terra, entopem canaletas, não reflorestam, para poupar migalhas.

Vejo represas que lavam o minério que vai embora para algum país distante. Abaixo da represa mora uma cidade com sua gente. Gente não tem valor para quem lava minério.

Sou poeta, já fui profeta. Profeta e poeta são a mesma coisa. O povo não escuta nem um, nem outro. Drummond, poeta, o maior de todos, quando Minas ainda minerava pouco, declarou:

...quer ir para Minas, Minas não há mais .. José, e agora?

.... sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José! José, para onde?

José marcha para a destruição do planeta, a negação da vida e um lugar que não existirá.

Vejo uma guerra.  Homem e natureza deveriam ser parceiros, mas se machucam e se matam. O que tem consciência deveria estancar a estupidez. Ele dispõe de  meios para isso. Só não tem vontade.

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