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Thiago de Mello e a Grandeza da Poesia

Uma notícia triste, sem dúvida, porque gostaríamos de viver sem fim. Mas não é assim. O sem fim passa pela morte.

15/01/2022 09h57 Atualizada há 2 semanas
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Por: Gilson Oliveira
Thiago de Mello e a Grandeza da Poesia

Thiago de Mello e a Grandeza da Poesia

A morte é indolor,

O que dói nela é o nada

Que a vida faz do amor. ( T. de Mello, Poema perto do fim)

 

A morte de Thiago de Mello chegou enquanto ele dormia. Uma notícia triste, sem dúvida, porque gostaríamos de viver sem fim. Mas não é assim. O sem fim passa pela morte. Passou Thiago de Mello, ontem, 14 de janeiro de 2022, sonhando, como sempre sonhou,  e encontrando, como sempre acreditou, a plena liberdade.  

Já o conhecia de breves citações, notas nos didáticos de Literatura e o vi pela primeira vez no sepultamento de seu grande amigo, Paulo Freire, quando  recitou Canção para os Fonemas da Alegria, homenagem àquele magnífico e poético educador. Eu já andava com algumas poesias suas na alma. De então, fiquei um fã atento.

Sua poesia tem a eternidade entranhada.  Faz Escuro Mas Eu Canto, porque a manhã vai chegar é o título original do mais famoso livro, que trouxe uma chama de esperança estampada, adentrando os recintos mais cruéis da noite do Brasil. Um mantra cantado e soletrado nas horas mais difíceis e torturantes de quem sonhou com a liberdade. Ficou uma celebridade da poesia. Coletânea que corta fundo o coração, pela mensagem direta e pela preciosidade dos versos. Foi um bálsamo na pele ferida dos torturados.

Assim se expressou seu amigo Pablo Neruda:

“Thiago de Mello é um transformador da alma. De perto ou de longe, de frente ou de perfil, por contato ou transparência, Thiago mudou nossas vidas, nos deu a segurança da alegria. O tempo e Thiago de Mello trabalham em sentido contrário. O tempo erosiona e continua. Thiago de Mello passa por nossas almas para nos convidar a viver”.

Na mesma obra em que se registrou o testemunho de Neruda, Otto Maria Carpeaux escreveu:

“Thiago de Mello é um homem aberto aos anseios coletivos do povo brasileiro. É e sempre será uma voz que canta, por mais impenetrável que pareça a escuridão da hora que atravessamos... Thiago de Mello nos inspira coragem. Sua poesia também é relógio: nos dá a hora do galo que anuncia a aurora”.

Essas afirmativas foram feitas em 1968, na hora mais sofrida dos anos de chumbo. Poderiam perfeitamente ser reescritas agora, porque o tempo é de luta e a poesia cadencia a resistência em todas as épocas e lugares.

Talvez haja pessoas que pensem que poesia é coisa pouca, devaneio inconsequente, coisa de quem não tem serviço. Pois aí está Thiago de Mello, decretando que poesia é sempre máxima, necessária, inerente à história e aos sentimentos de um povo.

Biografia

Thiago de Mello, nome literário de Amadeu Thiago de Mello, nasceu em Porantim do Bom Socorro, município de Barreirinha, no Estado do Amazonas, no dia 30 de março de 1926. Em 1931 mudou-se com a família para Manaus e iniciou seus estudos no Grupo Escolar Barão do Rio Branco e depois continuou  no Ginásio Pedro II.  Em 1946 mudou-se para o Rio de Janeiro, ingressando na Faculdade Nacional de Medicina, mas não concluiu o curso.

Em 1947 publicou seu primeiro volume de poemas, “Coração da Terra”. Em 1950 publicou seu poema “Tenso Por Meus Olhos”, na primeira página do Suplemento Literário do Jornal Correio da Manhã. Em 1951 publicou “Silêncio e Palavra”, muito bem acolhido pela crítica. Em seguida, publicou: “Narciso Cego” (1952) e “A Lenda da Rosa” em (1957).

Em 1957, dirigiu o Departamento Cultural da Prefeitura do Rio de Janeiro. Entre 1959 e 1960 foi adido cultural na Bolívia e no Peru. Entre os anos de 1961 e 1964 foi adido cultural em Santiago, no Chile, onde conviveu com Pablo Neruda, de quem fez a tradução de uma antologia poética.

Após o golpe militar de 1964, renunciou ao posto de adido cultural. Sua poesia ganhou forte conteúdo político e de indignação com o Ato Institucional nº. 1 e por ver a tortura ser empregada como método interrogatório, escreveu o seu poema mais famoso, “Os Estatutos do Homem”.

Perseguido pelo governo militar, retornou para Santiago, onde permaneceu exilado durante dez anos. Em 1975 recebeu o Prêmio de Poesia da Associação Paulista de Críticos de Arte, pelo livro “Poesia Comprometida Com a Minha e a Tua Vida”.

Depois do exílio político, voltou ao Brasil em 1978. Ao lado do cantor e compositor Sérgio Ricardo, participou do show “Faz Escuro Mas Eu Canto”, dirigido pelo cronista Flávio Rangel. Nesse mesmo ano retorna para a cidade de Barreirinhas, no Amazonas, de onde só saía para grandes eventos literários e políticos.

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