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A Pandemia e a Ética

Essa seria a hora do cuidado com a gente, com o outro, com o mundo e com nossa transcendência.

28/01/2022 11h48 Atualizada há 4 meses
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Por: Gilson Oliveira
A Pandemia e a Ética

A Pandemia e a Ética

            A pandemia da covid-19, não obstante a vacinação e a diminuição de mortes, não dá sossego. As variantes seguem desafiando a capacidade do homem de dominar adversidades e descontroles da natureza. Onde e como colocar a  ética que dê suporte de convivência, que contribua na superação deste flagelo e ajude a  qualidade de vida dos humanos e do planeta?

Em uma dissertação de 2007, em que abordava ética na educação e sua ausência nos projetos políticos pedagógicos, descrevi os cenários que ameaçavam a humanidade no futuro iminente. Entre eles, coloquei a possibilidade de uma pandemia, já aventada por cientistas, pois lidávamos com gripes aviárias e outras contaminações regionais. Assim me expressei:

Alterações climáticas se tornam mais constantes, modificando o ritmo de vida, da agricultura, da saúde. O processo de extermínio da humanidade está a caminho, combinando efeito estufa com desastres ambientais, escassez de recursos, disseminação de vírus e bactérias, chegando a um desequilíbrio perigoso. A ameaça de uma pandemia mundial não é mera especulação, mas retrata possibilidade real.

Ao expor à banca examinadora as conclusões da pesquisa, listei o que chamei de pontos de estrangulamento da ética no processo educativo. O sábio professor Dr. Secundino Jimenez foi às lágrimas ao comentar este ponto. Doía-lhe constatar que a ética estivesse sendo estrangulada. Pois é o que continua, e não é mais um estrangulamento, mas o  seu  abandono geral, perceptível com nitidez nesse tempo de pandemia.

            Resumindo a toada, naquele momento (e hoje), o projeto ético que melhor responderia às urgências do mundo globalizado seria a ética do cuidado, que não surge do nada, mas se vale do que há de mais precioso nos diversos sistemas éticos. A sua constatação básica é: ou nos salvamos todos ou todos morrem. A única resposta é o cuidado mútuo. Essa seria a hora do cuidado com a gente, com o outro, com o mundo e com nossa transcendência.

O que presenciamos é que não houve aprendizado. A pandemia foi e voltou e as pessoas não modificaram suas práticas. A grosseria, a estupidez, o individualismo, o egoísmo, a ganância, continuam do mesmo jeito. Seguem no mesmo diapasão as indelicadezas, desconsideração pela pessoa, apego aos bens materiais, investimento só em bens e não nas relações interpessoais mais fraternas e amorosas.

Vi nestes últimos dias: a lei da oferta e da procura. Faltam testes rápidos: aumenta-se em 150 a 200% o preço, azar de quem precisa. O preço da comida está estratosférico. Vi crianças catando latas, vendendo balas, puxei conversa, tive dúvidas se eram os pais que mandavam, se era exploração de terceiros, se o Conselho Tutelar teria conhecimento. Puxei conversa. Ficaram arredios. “Compramos nosso marmitex com isso”, disseram. Mais tarde vi os garotos sorridentes, solidários, sentados e tomando um mini refrigerante e comendo um salgado, numa partilha de sorrisos de mexerem com o sentimento.

O que está ocorrendo é que a sensibilidade, como tudo nesses tempos, passa como ventania e é temporã e sazonal. Vive da tragédia. Não é uma prática cotidiana, não está no coração diário. A comoção dura minutos, como a angústia de um goleiro na hora do gol, aproveitando-me da metáfora de Belchior.  A ética é uma exigência na relação com o outro e é permanente. Não pode ser ocasional.

Hanna Arendt afirmava que “o que está em jogo aqui não é apenas a liberdade, mas sim a vida, a continuidade da existência da Humanidade e talvez de toda a vida orgânica da Terra”.

A pandemia, como Garrincha, fez que foi e voltou, continua driblando nosso modelo de sociedade. As mortes de 620 mil pessoas no Brasil, quase 6 milhões no mundo, falam pouco à consciência coletiva. Pouco se aprendeu com o sofrimento. A dor não mudou a rota da violência, nem na ganância. As leis que dominam são as da oferta e da procura, quem pode mais, manda mais, meu pirão primeiro, cada um por si, nessa ordem. A ética, depois de estrangulada, foi amarrada e despejada no penhasco chamado desumanidade.  

A vida continua valendo muito pouco, menos do que antes, e isso é lastimável. 

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