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EU QUE TE BENZO, DEUS QUE TE CURA.

Na época em que as "peladas" nos davam prazer e alegria

13/05/2022 13h29
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Por: Remisson Aniceto
Foto do Bairro Aleixo (Nova Era), tirada pelo autor
Foto do Bairro Aleixo (Nova Era), tirada pelo autor
Sou da cidade de Nova Era, em Minas Gerais, com muito orgulho, assim como eu sentiria igual orgulho do meu berço se tivesse nascido em outra cidade de qualquer outro Estado brasileiro. O brasileiro, de ponta a ponta do nosso país, é um povo muito acolhedor, sempre disposto a um abraço sincero e a uma palavra de carinho. E a nossa língua, que os outros povos consideram ser uma das mais difíceis de aprender, é muito bonita e diversificada nação agora, o que a torna ainda mais interessante. Conquanto eu tenha passado 70 por cento da minha vida em São Paulo, guardo tantas boas lembranças de Minas, especialmente de Nova Era, do Aleixo, de Monlevade, de tantas pessoas com as quais vivi e convivi até os meus 17 anos. Ali onde passei minha infância e adolescência, vi, ouvi e vivi intensamente, nas condições que a vida me oferecia. Eu acreditava na vida e nas pessoas. Para todos os meus males, do corpo e da alma, sempre aparecia uma benzedeira com seus rolos de linha e suas agulhas para me aliviar. No Aleixo havia uma dessas benzedeiras que eu tanto admirava. Eu ia duas ou três vezes por semana à casa da família do meu amigo Renato de Sena, garimpeiro, que apesar de ter três vezes mais idade do que eu, nos entendíamos tão bem. O Renato parecia um tatu bípede com suas pás e picaretas, coalhando as montanhas, os vales e barrancos de túneis que levavam dezenas de metros terra adentro. Nunca abandonou o seu sonho de encontrar ouro. A gente falava de tanta coisa, de pedras preciosas e dos livros então, imaginem! Naquela época de vacas magras, quando era quase impensável comprar livros, a gente fazia o escambo. Trocando livros de faroeste, os famosos bolsilivros da Del Rey e da Cedibra, a revista Tex etc, a gente viajava nas aventuras pelo velho oeste americano, lutando com os índios Apache e Cherokee e com os assaltantes das diligências e dos trens de ouro, às vezes se identificando com o mocinho, outras com o bandido. Discutíamos acaloradamente sobre os livros lidos. E os mais jovens (como se eu não fosse um deles) não entendiam aquele nosso amor pelos livros e revistas ilustradas de novelas melosas em branco e preto. Quantas vezes depois de ler aquelas revistas, eu sonhava que era o herói daquelas histórias e que andava pelas ruas do Rio, de São Paulo, de Paris, de Nova Iorque, ao lado da mulher amada. Cheguei a escrever, até os meus 15 anos, algumas histórias, de romances e faroeste, e mandei para as editoras do Rio e de Beagá . Nunca tive uma resposta. Os filhos do Renato também eram meus grandes amigos, todos, diferentes do pai, menos afeitos à leitura, mas engajados nas peladas de futebol dos sábados à tarde no campinho que havia na margem da BR-381, na altura do Aleixo, onde morávamos. A gente chegava a jogar bola durante 5, 6 horas direto e não se cansava. Chegávamos ao campinho às 14h e só íamos embora quando a noite caía e já não conseguíamos ver a bola. Quando a lua era cheia, a pelada entrava noite adentro. Depois íamos pra casa em bando, tagarelando, com as canelas cheias de feridas, calos nas solas dos pés, arranhões, pernas sangrando, suando, mancando... Mas sorrindo, felizes, muito felizes.
Aos domingos de manhã, no máximo às 9h, eu ouvia o assobio dos meninos na estradinha em frente de casa, chamando outra vez para o futebol. E de novo íamos nos divertir, mesmo com os corpos doídos das peladas do sábado. E só voltávamos pra casa na tardinha do domingo, exaustos e famintos pra devorar o arroz, o angu com feijão e o quiabo, a couve, a taioba, o orapronóbis ou qualquer outra folha de mato comestível, mato que no Aleixo era abundante. De vez em quando havia um franguinho frito ou cozido com inhame, batata, cará... e até carne de cascavel, gambá, tatu, lagarto... Naquela época eu não tinha a consciência de hoje, da necessidade de amar e cuidar dos animais.
Nos sábados à noitinha íamos às missas na igreja Matriz de São José, em Nova Era. Na segunda, escola, bem cedinho. Às 6 da manhã, com sol ou com chuva, frio ou calor, as carteiras de madeira da Escola Nossa Senhora de Fátima nos esperavam. Uma hora de caminhada até Nova Era. Aprendi a ler em trânsito, sem ser atropelado, sem tropeçar, bater a cabeça nos postes ou cair nos buracos da estrada, estudando no caminho do Aleixo para Nova Era, quando era dia de prova. Chegava à escola com a matéria na ponta da língua e da caneta. Pouco antes de mudar para São Paulo aos 17 anos, estudei à noite na Escola Novaerense, dirigida pelo meu professor Vicente de Paula Oliveira.
Era extensa a minha lista de amigos, lista que não precisava de registro em papel ou nas redes (in)sociais que nem existiam. Nos conhecíamos de verdade, através do abraço real, dos olhares frente a frente, do riso sonoro e alto, diferente do kkkk destas redes.
No Aleixo eu tinha muitos amigos e, assim como o meu filho Bruno tem, aqui de São Paulo, eu também tinha amizade com os pais dos meus amigos, o que não é comum atualmente e era ainda mais incomum naquela época. No Aleixo de Baixo (eu morava no Aleixo do Meio e o Renato no Aleixo de Cima), morava a Dona Mariinha, mãe do Toni, do Carlinhos e de muitos outros filhos, uma senhora amável que gostava muito de mim. E eu dela. Uma senhora admirável na sua simplicidade. Sempre que eu passava em frente da sua casa, não havia como fugir: eu precisava entrar e tomar um café. Ela fazia, como quase todos faziam por ali, um café fraco, bem fraquinho. Fraquinho e com muito açúcar. Um café que parecia chá, de tão fraco. Mas daquele café da Dona Mariinha eu gostava, eu adorava aquele "café transparente", límpido como a alma de quem me oferecia. Apesar de fraco, fraquíssimo (olhando através do copo via-se a pessoa do outro lado), o sabor era especial, de uma forma impossível de explicar, como impossível de explicar é o amor. Constantemente eu me machucava durante as peladas no campinho e ao voltar pra casa eu passava em frente da casa da Dona Mariinha. O Toni, seu filho, me chamava para entrar e lá ia eu, dedão inchadíssimo, enorme e roxo, latejando, doendo ao extremo. A Dona Mariinha trazia água e linha, um terço marron e uma bacia com água.
Eu punha o pé todo sujo de terra vermelha sobre uma cadeira e ela ia jogando água nele. Com um rolo de linha e agulha nas mãos, ela rezava baixinho e parecia costurar o meu dedo, enquanto, de olhos fechados, dizia baixinho: "Eu te benzo, Deus de cura." E repetia inúmeras vezes, recitando baixinho frases que eu não entendia, enquanto olhava o rosto dela espelhado por trás do copo cheio de café.
Mas eu saía dali novo em folha, pronto pra outras tantas peladas aos sábados e domingos com os meus amigos, no campinho ao lado da rodovia da BR-381, no Aleixo, no caminho de Nova Era. Saudade... é o que sinto agora. Saudade... é o que temos pra hoje. Saudade... é tudo o que o meu coração pode oferecer neste momento.

 

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Nova Era - MG

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Sobre o município
Nova Era, fundada pelos bandeirantes, antes conhecida como São José da Lagoa, com aproximadamente 18.000 habitantes, é uma típica cidade mineira, com 318 anos. Atrai visitantes pelos casarões coloniais, pela beleza barroca da matriz de São José erguida no alto da ladeira, pelas peças históricas do Museu, pela Gruta e Lagoa de São José, pelas fazendas da Vargem e outras, pelos pés de jabuticaba nos fundos dos quintais e pelas longas portas de suas casas por onde passa a hospitalidade mineira.s
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