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Eu e as Copas do Mundo

O rádio não nos informou que vários cantores e compositores estavam vendo a Copa fora do país, exilados

13/05/2022 16h40
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Por: Gilson Oliveira
 Eu e as Copas do Mundo

Eu e as Copas do Mundo

 

Minha Primeira Copa (1)

Em Junho de 1970 eu tinha 9 anos. Estava no terceiro ano primário, na Escola Estadual Fazenda dos Alpes. Nossa professora era dona Maria Antônia, recentemente falecida aos 95 anos, em Juiz de Fora. Havia outra professora para o segundo ano,  Marilene, que também deixou saudades.

A Copa-70 se realizou no México, de 31 de Maio a 21 de Junho. Frio aqui, forte calor lá.

Lembro a preparação. O Brasil fez 14 partidas em 1969 e venceu todas, menos uma, a última daquele ano: em 03/09/1969, perdeu para o Galo por 2 a 1. João Saldanha era o treinador até 17 de março de 1970, dois meses e meio antes de começar a Copa. Comunista, em pleno regime militar, sem papas na língua, seria um contraditório enorme. A gota d’água teria sido um desejo manifesto do general Médici, que gostaria de ver Dario na seleção, ao que Saldanha teria respondido: O presidente escala o ministério, eu escalo a seleção. Zagallo foi chamado e Dario convocado três dias depois.  (História referendada por Saldanha e Dario e negada por Zagallo. Foi ou não, para mim Dario era o melhor camisa 9 do Brasil naquele momento e merecia).

Havia um debate entre comentaristas de rádio naqueles meses: se Pelé e Tostão poderiam jogar juntos. Puro bairrismo: os dois jogaram juntos nas eliminatórias e foi sucesso total. 

Os jogos dos dias de semana, na Copa, eram no começo da noite aqui no Brasil. O jogo de estreia, goleada de 4 a 1 na Tchecoslováquia, só confirmou nossa expectativa. O rádio era nosso contato: um Lomac em cima do guarda louças,  sintonizado na voz de Jorge Cury e Valdir Amaral, a lamparina sobre a mesa e nós em silêncio, escutando.

No caminho da escola, a resenha: Ninguém segura o Pelé... Tostão e Pelé é como sete de copas e zape na mão de truco.

Pouco antes, a 04 de novembro de 1969, em São Paulo, Carlos Marighela, que fazia seus contatos com os dominicanos, seria metralhado numa emboscada na  Alameda Casa Branca, centro de São Paulo. "Aqui é o Ernesto, vou à gráfica hoje", foi o código passado pelo telefone, interceptado pela polícia do DOPS.

Antes, fora desbaratada a guerrilha do Caparaó: ex-militares, insatisfeitos com o autoritarismo e a violência do Estado, tentaram organizar um foco de combate em torno do Pico da Bandeira. 

Durante a Copa do Mundo, a ALN e a VPR sequestram mais um diplomata no Brasil. Numa ação conjunta da Ação Libertadora Nacional (ALN) e da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), é sequestrado no Rio de Janeiro o embaixador da República Federal da Alemanha, Ehrenfried von Holleben. O objetivo desses sequestros era sempre a troca de presos políticos pelo sequestrado. Única forma de poupar a vida dos opositores ao regime.

Esses fatos nem passavam pela nossa cabeça. Nossos livros exaltavam o presidente Médici, a “revolução” e o país que vai pra frente, enquanto que o rádio era só pra reza e futebol.

 

Minha Primeira Copa – 2

Lembro-me dos jogos difíceis: A Inglaterra foi duríssimo páreo, só resolvido no segundo tempo, após uma jogada de efeito do mais inteligente jogador brasileiro: Tostão. A bola alçada para Pelé, fazendo as vezes de centroavante, marcado por vários adversários, seu domínio absoluto, o toque medido, treinado, calculado, para Jair arrematar inapelavelmente.

Ainda teria o Uruguai numa semifinal.  O Brasil tomou o gol no primeiro tempo, para nosso desânimo naquela noite, na cozinha, comendo batata assada e tomando café. Um friozinho de junho e o calor do fogão, o banco de madeira, o pilão virado e nós apertados um no outro, com medo do Uruguai. Um irmão, o mais velho, reclamou:

_ Esse Uruguai de novo?

Na sequência, o gol de Clodoaldo. Que coisa! Clodoaldo! Tostão dando assistência, milimétrica. Pelé comandou a reação, a força, a crença. Marcado deslealmente, atirado ao chão várias vezes, chutado sem bola, arrastava os adversários atrás de si, driblava, tornava a apanhar, dava o troco, matreiro, e se deslocava para abrir espaços, e se agigantava para abater os carrascos do passado. Brasil 3 a 1. Que jogo! Alivio! No dia seguinte, até minha mãe, que não era do futebol,  comentou e sorriu:

_ Domingo é contra os italianos, até o padre Vitor já falou na rádio Aparecida. Falou que o Brasil vai ter que jogar muito e que é pra rezar.

            As músicas mais tocadas daquele ano foram o extraordinário samba Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida,  de Paulinho da Viola, além do Pra Frente Brasil - Coral Joab e Eu Te Amo Meu Brasil - Dom & Ravel, em função da Copa e da propaganda do governo. Roberto Carlos emplacava Jesus Cristo – uma música que ficou no meu subconsciente por causa de uma menina que morreria naquele ano. Elis já sobressaía com Madalena e Gal Costa gravou London, London, composta por Caetano no exílio.

O rádio não nos informou que vários cantores e compositores estavam vendo a Copa fora do país, exilados, assim como tantos outros intelectuais e militantes de esquerda. Não noticiou que o pau cantava mesmo era no DOI CODI, em torturas absurdas.

As canções dos Beatles eram repetidas, mas duas outras me marcaram a partir desse ano e me deixam até hoje com uma saudade agressiva, torturante, me trazendo aqueles instantes de convivência, os amigos, as garotas, a expectativa de vida, muitos sonhos. Falo de Raindrops Keep Fallin' On My Head - B.J. Thomas e de Menina, do Paulinho Nogueira.

Muitos amigos já haviam saído da escola. Outros como meu irmão João, minha irmã Aparecida, meu xará Gilson Lopes, Adilson, estavam em seu último ano. Muitos dos colegas de turma, teríamos ainda um ano juntos: Juvêncio, José Conceição, Onésimo, Tião, Madalena 1, Madalena 2, Ana Maria, Helena. Terminar a escola primária era fechar um tempo, começar a trabalhar no ponto ou partir para a cidade grande, definir a vida, começar a namorar, as meninas se casavam com, no máximo 18 anos, os rapazes, pouco mais. Era a diáspora ou o êxodo.

Saudade do ir e vir estrada a fora, tentando enxergar futuro em um país sem futuro. A Copa era o fim. A realidade era só dureza ao sol.

Minha Primeira Copa – 3

A partida final da Copa-70 se deu no domingo 21 de junho. Minha irmã Dora, já casada, me intimou almoçar em sua casa. Voltei rápido pela longa estrada serpenteada de bambu. Tinha que ouvir o jogo, tão comentado na semana, tão falado em toda casa, todo caminho, todo trabalho.

Ao chegar no terreiro da nossa casa, João olhou para mim com olhar preocupado:

_ Cambada! Já empataram. Pelé marcou, mas Bonisegna empatou.

Brasil Campeão, goleada de 4 a 1, sua melhor formação em todos os tempos, embora haja quem discuta se não foi a de 58 a melhor. A inteligência em campo, o espírito de liderança de vários jogadores, o ajuntamento de gênios como Tostão, Jairzinho, Rivelino, Gerson, somados ao indescritível Pelé, isso era demais. Time bem treinado, jogando junto fazia tempo, senhor de si. Uma Copa e uma Seleção.

O país em seu período mais sombrio, de um totalitarismo sem precedentes, festejou raríssimo momento de alegria. Pra frente Brasil, e a repressão seguia ainda mais forte, encoberta de um entusiasmado tricampeonato de futebol.  

 

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