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Uma Breve Introdução as Confrarias e Irmandades Congadeiras

“O Clero se instalou em Minas Gerais nos primeiros anos de seu povoamento...

19/06/2021 17h07
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Por: Chafith Chafith
Uma Breve Introdução as Confrarias e Irmandades Congadeiras

  “O Clero se instalou em Minas Gerais nos primeiros anos de seu povoamento, mas não trouxe para as “Minas Gerais” as grandes Congregações, Confrarias ou Irmandades religiosas existentes no litoral (para propagar a religião e exercer as suas funções socioeconômicas), como as congregações das Carmelitas e Jesuítas. 

  Nas Montanhas e nas Minas Gerais as Irmandades dos Homens Pretos, dos Crioulos, dos Banguelas e de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, teve um propósito político e religioso. Foram nelas que os escravos começaram a construir sua identidade, ou melhor, a identidade do povo brasileiro como nos diz as obras de Darcy Ribeiro em O Povo Brasileiro e Gilberto Freire em Casa Grande e Senzala.

  A Coroa Portuguesa tratou de estimular a organização de Irmandades a fim de, com elas e através delas, transferir ao próprio povo, isto é, aos mineradores, garimpeiros, comerciantes, cativeiros, religiosos e escravos, os encargos tão dispendiosos de construir templos, cemitérios, estradas, fazendas, etc.

  Todos os complexos e caros cerimoniais do culto católico eram, desta forma transferidos à população através das Irmandades, Ordens Terceiras e Confrarias. Geralmente essas confrarias eram formadas por grupos e etnias de escravos que se organizavam como forma de sobrevivência e de consolidação da identidade cultura de milhares de escravos africanos, sequestrados em vários pontos da África e trazidos como escravos para trabalhar nas lavouras dos portugueses.

  A Igreja Católica agia com uma tática de catequese que tinha na conciliação a base de sua política de conversão à fé católica. A população por sua vez, encontrava nestas corporações uma estrutura eficiente e legal, uma forma orgânica para expandir suas necessidades ou reivindicações coletivas, funcionando como autênticos organismos sociais na época

  Estas Irmandades e Confrarias Congadeiras eram na verdade um instrumento de acesso social, que o tirava da condição de escravo e com o apoio da Igreja lhe dava uma identidade social”

Devoção e Fé a Nossa Senhora do Rosário

  Propagaram-se por toda Minas várias Irmandades. No entanto, popularizou-se a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário devido ao grande contingente de escravos e, posteriormente, de mulatos que aqui viviam, representando um contínuo de sua devoção à Nossa Senhora do Rosário e alguns santos da África Portuguesa, como Santa Efigênia e São Benedito.

  A Coroação de Rei Negra que persiste nas manifestações populares-religiosas tem íntima ligação com a Confraria de Nossa Senhora do Rosário, politicamente introduzida no Congo Africano pelos missionários Franciscanos e Dominicanos, anterior, portanto, à vinda de escravos para o Brasil.

  Os Dominicanos atribuem a origem desta devoção ao fundador desta ordem, São Domingos, fundada em com o objetivo de propagar a devoção ao Rosário de Nossa Senhora. Tal devoção foi também instituída por São Francisco, contemporâneo de São Domingos de Gusmão, como norma obrigatória para os adeptos de sua ordem.

  No Brasil, o culto à Virgem do Rosário deve-se à ação missionária dos primeiros tempos de colonização. Os antecedentes da preferência negra pela devoção a Nossa Senhora do Rosário podem ser identificados através de alguns traços da cultura africana.

  Há indícios de que na região do antigo Reino do Congo, já cultuavam uma deusa cuja imagem ostentava acessórios de contas. Os negros podem ter estabelecido uma relação útil à catequese na África entre Nossa Senhora do Rosário e essa deusa

Quilombos, Irmandades e Confrarias

  Quando as irmandades foram introduzidas em Minas Gerais, muitas gerações de escravos já conheciam a figura de Nossa Senhora do Rosário através de estampas religiosas que eram distribuídas na África pelos missionários, como os de procedência Banto, principalmente os de Angola e do Congo. Os Quilombeiros de Pernambuco depois do fim do reinado de Zumbi dos Palmares desceram em massa para o interior do Brasil. Só em Minas há registros de mais de centenas de Comunidades quilombolas ou Quilombos, espalhados pelas regiões montanhosas, que davam mais facilidade de fuga e combate com as tropas portuguesas, de mercenários e garimpeiros.

  Antes que se espalhassem mais quilombos pelas Minas Gerais, os padres Jesuítas e Dominicanos, que tinham acesso aos escravos, introduziram o culto ao Rosário e organizavam de forma associativista os escravos, geralmente comprados dos portugueses devido a algum problema, e estes eram conduzidos para as Irmandades e Confrarias de Nossa Senhora do Rosário, ou São Benedito, ou Irmandades dos Homens Pretos, ou Crioulos, que logo davam um jeito de encaixá-lo em alguma atividade produtiva sob controle da Igreja e das Confrarias. (Mineração, plantio de Banana, Café, Cana de açúcar, feijão, milho, fabricação de farinha, etc).

  Geralmente essas terras e fazendas pertenciam a Igreja, que cedia para os escravos de confiança gerenciá-las, onde cultivavam alimentos para que os comerciantes e viajantes (tropeiros) que se deslocavam pelas montanhas de Minas Gerais pudessem alimentar-se. Alguns escravos, protegidos pelos padres, ligados as Irmandades gerenciavam fazendas de plantações de cana, café, milho, criações, além das minas de ouro e pedras preciosas de propriedade da Igreja. Prestavam serviços construindo fazendas, capelas, estradas, formando pastos, desmatando as florestas, para os latifundiários da Coroa e os judeus ricos que fugiam da Europa por algum motivo de perseguição (inquisição ou cólera), e se instalavam no país com montantes de terras do tamanho de muitos países europeus. Logo a necessidade de se fazer contratos e instituições para administrar os interesses da igreja e dos escravos, através de suas instituições ou Irmandades foi uma realidade.

  Portanto, eram irmandades ricas e produtivas que reinaram comercialmente e ajudaram na miscigenação dos povos que vieram para o Brasil e junto com Índios, escravos africanos e portugueses fundiram a identidade étnica e cultural do povo brasileiro.9

  Com as Irmandades do Rosário, o reinado se popularizou, pois ele era previsto pelo estatuto, com mandatos simultâneos através de eleição anual, sendo esta uma determinação peculiar das Irmandades de Nossa Senhora do Rosário: - “Haverá, nesta Irmandade, um Rei e uma Rainha, ambos pretos, de qualquer nação que sejam, os quais serão eleitos todos os anos em mesa a mais votos, e serão obrigados a assistir, com o seu Estado, às festividades e mais santos, acompanhando no último dia a procissão atrás do pálio” Cópia do Estatuto de 1800 de Nova Era/MG.

O Congado e o Rosário

  A primeira representação da Virgem do Rosário data de 1474 em Cologne/Alemanha. A palavra Rosário etimologicamente significa uma coroa de rosas, onde as contas são figuradas como rosas brancas e vermelhas. Como prática religiosa, uma sucessão de séries de 165 contas, correspondente ao número de 15 dezenas de ave-maria e 15 padre-nossos para serem rezados.

  “É necessário um estudo mais profundo, sobre as etnias africanas que chegaram em nossa região como escravos. Ou seja, o Rosário de Ifá ou muçulmano, com ele os negros aproveitaram para disfarçar cultos e crenças proibidas, disfarçando reais sentimentos religiosos, interculturando suas práticas originárias com o ritual católico”

  “No Congado de algumas regiões de Minas Gerais há fusão de cultos católicos aos costumes e práticas africanas que, com o tempo, vem se diluindo”. E raros são os Congados que persistem nas homenagens votivas a Zâmbio Pongo - Deus supremo dos negros do Congo - Zâmbi. Permanecem as celebrações festivas e às vezes de sentido oblacional e de influência católica, o Rosário de Maria com a sua mística.

  “Celebrações cheias de religiosidade, não apenas católicas, mas fetichista e às vezes emética onde o simbolismo conserva essas vocações que, hoje aos poucos, vão perdendo o significado”.

  Sabe-se que os Reinados de Nossa Senhora do Rosário originaram-se da determinação estatutária das irmandades, com funções previstas, sendo os seus componentes membros efetivos - de honra - de sua diretoria com mandato de um ano, e às vezes sem a narrativa de autos e danças.

  Se o Reinado origina-se da estrutura legal das Irmandades, automaticamente era uma manifestação distinta que se folclorizou, que se integrou e se integra harmonicamente a outras manifestações autônomas

  Hoje as Irmandades estão quase que totalmente desaparecidas em sua forma legal como instituição, mas sobrevivem os Reinados, os Congados e outros folguedos folclórico-religiosos, bem como o devocionismo popular, revivendo dinamicamente estas instituições espontâneas e significativas do universo do povo.

  Estas manifestações hoje vêm se organizando em associações, fundações e casas dos Congadeiros, se aglutinando em torno de Diretórios Regionais e da Federação dos Congados de Nossa Senhora do Rosário do Estado de Minas Gerais

As Irmandades de Congado como Instrumento Jurídico dos Escravos

  Após a abolição da escravidão a igreja se omitiu e ignorou todo o desmantelo do patrimônio das Irmandades pela Coroa Portuguesa e pela própria Igreja. Em regimento interno pesquisado na Torre de Tombo de Portugal, uma biblioteca com documentos da época do Brasil colônia, temos registros de suas funções que iam desde a organização de suas festas durante o ano até os funerais os quais eram de sua responsabilidade.

  O congado na verdade como um instrumento social e de assistência aos menos favorecidos teve um papel fundamental. Através da criação de estatutos jurídicos próprios, orientados pelos padres Jesuítas e Dominicanos, designando as atribuições relativas às ações sociais das irmandades.

  Neste contexto as Confrarias e Irmandades tiveram papel importante, onde vários negros conquistaram poder e alforria, através de negociações, como foi o caso de Chico Rei e de negros que ele libertou.

  Essa questão é relevante para as Irmandades Congadeiras uma vez que elas se tornaram um dos tipos de instituição cuja dinâmica interna criou hierarquias, disputa e exercícios diversos de poder entre seus membros e deles com autoridades, a fim de garantir mobilidade social, como ocorre dentro das Irmandades. Dessa forma, muitos negros, pardos e brancos mostram até hoje desejo e interesse de participarem de uma Irmandade Congadeira em busca de visibilidade e mobilidade social.

  A história das irmandades de Congado, na Capitania de Minas Gerais, desde o século XVII, sendo estas anteriores à formação das Vilas e do próprio governo de Estado, foram fundamentais, tanto as de homens brancos (confrarias Vicentinos) quanto as de negros, pardos, crioulos como agencias negociadoras da alforria de negros escravos.

  Atuaram na promoção social de negros, mediando conflitos de interesses entre eles e as autoridades (senhores e a Coroa). Com frequência, as Irmandades tiveram denominações como: Confrarias e Associações, com o sentido de organizações religiosas de brancos, de negros, de pardos ou mistas, com estatutos e regimentos internos conhecidos por ordenações e compromissos.1

  Segundo Brandão (1987) “as Irmandades, do mesmo modo que se constituíam como a agência consentida de corporações de negros e escravos, organizaram as suas estratégias de participação na vida da Igreja e controlaram internamente formas de comemoração religiosa. As Irmandades católicas de negros foram instituições de origem dos festejos de cunho religioso e popular de que derivaram os ritos coletivos de negros católicos de hoje, nas festas de santos padroeiros”

  Silvia Brugger e Anderson de Oliveira (2007) em seu artigo Os Benguelas de São João Del rei, se referem às Irmandades como “território de afirmação de identidades coletiva e de atuação social de africanos e seus descendentes, seja através de construção de templos, seja através de suas diferentes devoções e congregações”

  Além, de sua relevância espiritual, as Irmandades exerceram papeis influente nas relações hierárquicas de poder, como é possível observar na análise de Boschi (1986): “Nas Minas Gerais, ao se constituírem e se organizarem, extrapolando suas funções espirituais, as irmandades tornaram-se responsáveis diretas pelas diretrizes da nova ordem social que se instalava e, a exemplo dos templos (igrejas) e capelas que construíram, elas espelharam o contexto social de que participavam. Nesse sentido, precederam ao Estado e a própria Igreja, enquanto instituições. Quanto ao primeiro, quando a máquina administrativa chegou, há muito tempo as irmandades já atuavam como apoio aos escravos e floresciam.

  Portanto as Irmandades se tornaram um dos poucos territórios a oferecer condições a alguns negros para conquistarem prestigio e destaque social. As contradições eram as mais variadas no interior das Irmandades: elas se tornaram condições que se possibilitou a solidariedade étnica entre nações negras, mas promoveram a competição entre seus membros que concorreram entre si. Além disso, conviveram com o ritual africano, a despeito das Ordenações.

  Exerceram poder político diante da Igreja e do Estado e protegeram negros, lhe garantindo alguns direitos, que não deixaram de representar uma ameaça potencial à ordem vigente, legitimada e sustentada por elas.

  A autoridade das Irmandades aumentou com “a política restritiva e proibitiva da Corte em relação à presença de clérigos na Capitania (que) também contribuiu para o advento de manifestações culturais próprias. Esse contexto aumentou a autoridade religiosa leiga e incrementou o catolicismo negro.

  Segundo BOCHI, “os negros faziam de tudo para entrar em uma Irmandade, pois era uma forma de obterem benefícios sociais (inclusive o amparo aos funerais e aos órfãos e viúvas) e se livrarem de preconceitos e pechas de feiticeiros. Freyre também afirma que, apesar de as Irmandades terem sido um espaço de revivamento de ritos e práticas religiosas africanas, o importante para o negro era o status de cristão e a condição de superioridade social que conseguia ao fazer parte delas”.

  Segundo (ASSMANN, 1995), “o orgulho pela condição de cristão e a superioridade social conseguidas nas Irmandades fazem parte da dinâmica da mobilidade social e da negociação de poder dentro nas relações hierárquicas também presentes nas Irmandades. Além disso, dizem respeito a processos auto organizativos dos negros que, mediados pelas memórias, puderam preservar e reelaborar as tradições”. Daí a organização do Congado.

  Assim nas análises de BASTIDE (1971) “cada negro trazia em seu corpo e em sua memória, os símbolos mágico-religioso. Que é preciso dizer, e que é mais justo, é que traços das civilizações africanas, particularmente de civilizações bantos, passaram, sem que os sacerdotes percebessem, ao culto dos santos negros ou nas congadas. Parecíamos estar bastante distantes das religiões africanas quando estudávamos o catolicismo. Assim, não era tanto quando imaginávamos, porque essas Congadas foram justamente um dos “nichos” de que falamos, no interior do qual o negro pode guardar preciosamente seus deuses ou seus espíritos, para melhor adorá-los”.

  Assim, segundo o professor e folclorista Saul Martins e a Professora Efigênia Gonçalves (PUC), “as Congadas foram uma forma de não deixar prevalecer somente o lado africano do culto como o (candomblé), por isso ainda hoje há muito preconceito dentro das Irmandades de Congado com o Candomblé. Nos cultos, introduziram também a influência da cultura portuguesa e dos índios. Trouxeram as Marujadas (que segunda a lenda foram os Marujos ou Marujadas quem trouxeram a imagem de Nossa Senhora de uma ilha próxima para uma gruta no território brasileiro). Com as Marujadas, o Vilão e as pastorinhas (Confrarias de vaqueiros e de pecuaristas), os Cavaleiros de São Jorge (um congado a cavalo, geralmente abriam ou iam atrás das procissões, eram centenas de cavaleiros que viam de longe] para acompanhar as procissões), o Congo (o lado mágico africano, rezador e benzedor, mas bem católico e reprimido pelos padres), o Moçambique (com o batido forte dos tambores de guerra dos africanos), o Catopé e o Caboclinho (com uma influência forte dos índios) e o candombe (já em extinção e o mais africano destes segmentos, não era um cortejo eles tinham seus espaços e só cantavam em dialetos africanos)

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São Domingos do Prata - MG

São Domingos do Prata - Minas Gerais

Sobre o município
São Domingos do Prata é um município brasileiro no interior do estado de Minas Gerais, Região Sudeste do país. Sua população estimada em 2018 era de 17 393 habitantes.[1] Situa-se na região do médio rio Piracicaba.
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