Cidades COLUNA SOCIAL

O Presidente, o Santuário e a Misericórdia

O santuário agiu como portador da misericórdia, ainda que o falso romeiro não tenha misericórdia de ninguém

15/10/2021 13h46
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Por: Gilson Oliveira
O Presidente, o Santuário e a Misericórdia

Após o 12 de Outubro, dia padroeira querida do Brasil, recebi várias mensagens, pessoais ou coletivas, externando decepção e pedindo parecer sobre a recepção que teve o presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, no Santuário Nacional de Aparecida. Antes de sua chegada,  na missa anterior, o arcebispo Orlando Brandes, profético, deu seu recado: uma pátria amada não pode ser armada. É preciso amor e não ódio, verdade, e não mentira. Muito aplaudido.

Mais tarde chegou o presidente com a galera gritando mito, mito e uma parte maior gritando palavras de contestação e protesto, enquanto que boa parte observava de longe, sem se manifestar.

No Santuário, o presidente fez leitura na missa e, salvo engano, leu a  linda Consagração a Nossa Senhora, outrora rezada piedosamente na voz rouca e devota do saudoso padre Vitor Coelho de Almeida. Ficou para muitos e para mim também um sentimento de repúdio, de uma quase profanação a merecer desagravo, inclusive manifestado numa carta que leio nas redes sociais, assinada por vários sacerdotes.  

Fiquei a refletir na noite de 14 para 15/10, sobre o fato, em face de questionamentos de amigos, procurando justificativa para o inusitado. Relembrei alguns fatos.

Quando assumiu a direção da Arquidiocese de Aparecida em 1995, o Cardeal Aloísio Lorscheider colocou como premissa prioritária para todos os que trabalham no Santuário, de faxineiros a sacerdotes, de guardas a comunicadores: acolher muito bem cada romeiro e romeira. Não que antes não se fizesse! Era preciso fazer mais e melhor, com excelência. Trata-se da casa da Mãe e ninguém, eram palavras dele, pode estar ali que não seja para servir ao romeiro(a), seja quem for. Mudou radicalmente a estrutura do Santuário e seu entorno para esse objetivo: acolher e servir, atitudes marianas fundamentais.

Lorscheider foi seguido na mesma toada pelo zeloso Cardeal Raymundo Damasceno, e essa mesma linha continua com o atual arcebispo Orlando Brandes. Sendo a casa da mãe de Jesus, é preciso ser também a casa da misericórdia, virtude que é um dos pilares da ética cristã. Nenhum discurso é verdadeiro se não amparar nesta prática de misericórdia.  

Acredito que o Santuário fez o caminho certo: Maria acolhe a todos e ninguém é expulso ou excluído da casa da mãe. A casa é dela, não nossa. O romeiro que reflita se está em condições de ir até lá. Avalie se está limpo para entrar na festa. Repense, se for capaz, sua conduta diante daquela que proclamou: “Doravante todas gerações me felicitarão, porque o Topo Poderoso realizou grandes obras em meu favor: seu nome é santo, e sua misericórdia chega aos que o temem, de geração em geração” Lc 1, 49).

O santuário agiu como portador da misericórdia, ainda que o falso romeiro não tenha misericórdia de ninguém. Jesus, no evangelho segundo Lucas, revela a misericórdia do Pai. Dialogou com certa misericórdia até com o demônio, conforme Lc 4, 1-13. Expulsou os vendilhões do Templo, mas isso é outra pegada.

Dom Luciano Mendes, a misericórdia em pessoa, certa vez me abordou sobre um colega que sabotava a nossa organização pastoral. Perguntei se havia falado com o sabotador. Disse que sim, mas não poderia, naquela altura da vida do referido, atropelar sua existência.

_ É a misericórdia, não é Dom Luciano!

_ Sim, é o caminho.

Eu acabara de fazer um estudo com o povo sobre o Evangelho de Lucas, pela chave da misericórdia.

Houve ainda um embate ferrenho com outro colega, candidato político na cidade. Queríamos arrancar dele, Dom Luciano Mendes, uma declaração, uma palavra que desabonasse tal candidatura.

_ Olhem, percebam como o moço está se afundando, com apenas as mãos fora da água. Querem que eu, com as minhas mãos, termine por afundá-lo? Não posso fazer isso.  

O Santuário de Aparecida, lugar de discernimento, de irradiação de luz e graça, agiu com iluminação: possivelmente, o ocupante do palácio do Planalto quisesse exatamente uma rejeição pública, da qual faria um escarcéu, se faria de vítima e criticaria a falta de acolhida na igreja. Pois se deu mal exatamente aí: nunca poderá dizer que foi maltratado ou  que não recebeu misericórdia na casa da Mãe de Jesus. Mesmo sendo quem é.

Ao colocá-lo à frente para ler, o Santuário o fez testemunhar que ali tem caridade e se faz o bem, sem olhar a quem.

 

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