Cidades Coluna Social

Minha Primeira Vez em BH

Descobrindo uma cidade

15/10/2021 16h02
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Por: Nélio Azevedo
Edifício Niemayer
Edifício Niemayer

Foi nos meados da década de 60, viemos para o casamento da Neidinha e a família já tinha um apartamento alugado na Rua Rio de janeiro, quase em frente ao Cine Paladium, endereço que se tornaria uma espécie de embaixada de Raul Soares junto com algumas repúblicas onde só moravam os filhos da terra.

Viemos em grande número com a Rural Willys lotada e ao nos aproximarmos da cidade pude ver os seus edifícios mais altos e a extensão da metrópole com suas dezenas de bairros e o movimento frenético de automóveis e ônibus.

Confesso que fiquei maravilhado com aquilo tudo que dali em diante passaria a ser uma paisagem comum para mim. O cheiro de asfalto e dos escapamentos misturados a outros cheiros que eu não conseguia definir iam montando uma espécie de mosaico na minha mente e se tornando realidade à medida que íamos ganhando o centro da cidade.

Era tudo tão diferente de hoje em dia, o tamanho da cidade mais que dobrou, a quantidade de carros na capital é maior do que o total de carros no Estado todo, aqueles Troleibus, com seus braços estendidos se agarrando aos fios que o alimentavam lhe conferiu um cosmopolita mesmo antes de saber o significado dessa palavra.

Minhas irmãs e irmãos já moravam aqui há tempos e já tinham travado amizades e tudo lhes era tão familiar que parecia que eram naturais do lugar. A festa foi no tal apartamento do Edifício Miraci, um prédio de doze andares que resiste ao tempo com suas mazelas e seus vetustos elevadores com portas de grade sanfonada que às vezes teimavam em não abrir ou abriam sem que o elevador estivesse no andar.

Tinha muita gente e eu todo metido com uma calça de boca de sino que, ao andar pelos ambientes ia varrendo o chão e onde parava, formava aquele montinho de papel de salgados e doces ou baganas de cigarro jogados ao chão. Ao final da festa, muitos se foram e alguns ficaram para retornar mais tarde, eu fiquei e minha mãe aproveitou para me levar para uma consulta no Hospital da Previdência na Alameda Ezequiel Dias, era um trajeto curto que pudemos fazer a pé e a minha mãe foi me conduzindo pelas ruas e avenidas e chegamos perto do Parque Municipal que ainda não tinha grades, fiquei impressionado com o seu tamanho e as belas árvores desse oásis numa selva de concreto, asfalto e vidro.

Fiquei maravilhado com o hospital e suas dependências modernas num prédio recentemente inaugurado. Fomos para a rua lateral onde eu faria alguns exames, pois eu tinha uma dor de cabeça crônica e poderia ser o esforço visual, como no caso do Nilson que sofria com uma miopia severa, mas era só uma enxaqueca que me acompanha desde a infância.

Ao voltarmos para casa pedi a minha mãe que passássemos pelo parque e a minha alegria e fascinação com aquele local aumentou exponencialmente, aquele lago com um coreto no meio, os patos e peixes em suas águas, as pessoas passeando, os retratistas lambe-lambe, as pontes com corrimãos imitando galhos retorcidos, a Concha Acústica, o coreto, a pista de patinação circundado pelas jaqueiras, o lago das barcas e as quadras onde alguns rapazes jogavam futebol de salão. Ao chegar na outra extremidade a minha mãe me apresentou o Teatro Francisco Nunes, o Palácio das Artes ainda não existia. Atravessamos a larga Avenida Afonso Pena e subimos a Avenida Augusto de Lima até a Rua Rio de Janeiro. Pronto, estava traçado em minha memória o trajeto que eu deveria fazer para ir ao parque sozinho ou até mesmo ao hospital pegar os resultados dos exames. Vini, vindi,vinvi!

Na manhã seguinte eu acordei cedo, pelo fato de não ter conseguido dormir bem num sofá que mal me cabia, tomei o café e fui direto pro parque onde me encontrei com alguns rapazes que estavam se preparando para começar uma partida de futebol e perguntei se poderia jogar também, não tinha levado calção e joguei de calças mesmo. Me disseram que vinham sempre e que jogavam também na quadra de um colégio que ficava no Bairro Anchieta, era o Colégio Arnaldino que mais tarde veio a se chamar Colégio Arnaldo. Aceitei o convite e não é que fui de ônibus até lá, era a antiga linha 38 Cruzeiro que me deixava na porta mas tinha que caminhar até a entrada dos fundos, na rua Montes Claros, onde tinha um campo e era cercado por tapumes e cerca de arame. Jogamos até cansar e fomos matar a sede na varanda da casa de um dos meninos cujo pai era médico e muito conhecido na região. Tinha uma fonte mais pra cima, no final da Rua Francisco Deslandes onde os meninos se banhavam junto com as lavadeiras e os apanhadores de água. Não quis ir até lá e voltei no mesmo ônibus que fui, me deixando num ponto próximo da Afonso Pena e cheguei em casa sem problemas.

Tinha um menino norte-americano chamado Dani, (Daniel) que a mãe dele não gostava que os outros meninos fossem à casa dele, nem pra tomar água depois da pelada, pra variar, ele era muito ruim de bola e não entendia as regras do jogo, ele tinha outros irmãos que eram bem menores e anos mais tarde ao trabalhar com um dos meninos da pelada, descobri que o Martinho, era filho do tal médico e o menino americano era filho do Dan Mitrione, o agente da CIA que veio ensinar os métodos de tortura à Polícia Civil no Dops.

Um dia eu fui ao Parque Municipal e não encontrei a turma da pelada lá, mas tinha um grupo de pessoas ensaiando na Concha Acústica, eram participantes de um concurso de jograis e corais, a turma que estava esperando era de Caxias do Sul e uma moça veio me entregar um panfleto anunciando a apresentação do grupo que ela fazia parte. Ela era pequena, os cabelos negros e soltos, os olhos azuis cintilantes e um rosto perfeito. Olhamo-nos nos olhos e fiquei igual uma estátua petrificado diante de tanta beleza. Ela se apresentou estendendo a mão num cumprimento e um sorriso que me encantou, assisti a apresentação do grupo dela na manhã seguinte, mas não tive mais contato com ela, pois o grupo saiu da apresentação e foram direto para o ônibus e não a vi mais. Nunca tinha visto tanta beleza em um metro e meio de altura.

O meu primeiro misto quente no Ted’s também foi um acontecimento, regado à Coca Cola ou outro refrigerante, talvez um Crush ou Grapete, até mesmo uma Mirinda, não sei ao certo, só sei que o gosto permaneceu por décadas na minha memória; depois vieram o milkeshake e uma banana split com direito a repetir algumas vezes. Tudo isso era contado em Raul soares como se fosse um tesouro descoberto nesse Novo Mundo a ser explorado e conquistado e, olha que eu ainda não tinha descoberto a lanchonete das Lojas Americanas, outro templo da gastronomia Fast-Food da capital.

Numa de minhas andanças eu conheci uma menina que não consigo me lembrar o nome, ela morava no Edifício Nossa Senhora do Carmo e era a pessoa mais linda que eu já tinha visto, seus cabelos sempre sobre um lado do rosto, seus olhos grandes e negros, expressivos e a boca mais linda que eu já beijei, aqueles lábios carnudos completavam a perfeição que nem os estragos feitos pelo ácido lançado em seu rosto conseguia macular. Ela foi vítima de uma mulher chamada Tânia que, por ciúmes do seu namorado que um dia mexeu ou conversou com essa menina, recebeu um copo de ácido sulfúrico no rosto que foi protegido em parte por seus longos cabelos, mas a orelha ficou quase toda destruída. Ela tinha um complexo terrível por ter essa cicatriz no rosto e no pescoço e por ser filha de mãe desquitada. O tal edifício era um dos únicos que aceitavam mulheres nessa condição. Não éramos namorados, mas tínhamos nossos encontros furtivos e ela gostava da minha amizade por não vê-la como se fosse somente uma cicatriz. Depois de um tempo eu voltei pra Raul Soares, quando voltei fiquei sabendo que ela se mudou e não tive mais notícia dela.

Eu me encontrei um dia com um amigo de Raul Soares chamado Jorginho, na verdade, ele tinha sido colega de escola do Névio e eu o conhecia também, morava na Rua Santana e trabalhava nos cinemas do Luciano, ele me apresentou para um dos porteiros do Cine Paladium e de outros cinemas, isso me dava acesso de graça aos melhores cinemas de BH. Viva! Assistia até dois filmes por dia sem pagar nada. Eu anotava s nomes dos filmes e dos atores, cheguei a assistir mais de 200 filmes e não sei onde foi parar o caderno de anotações.

E a exploração da capital continuou, eu decorei os nomes das ruas do centro com facilidade, já que têm nomes de indígenas e de estados, até que um dia eu fui conhecer a tão falada Galeria Ouvidor, um imenso centro comercial que ainda não tinha o nome de Shopping Center, apesar de já existir na Praça Sete uma galeria com esse nome, onde conheci a primeira escada rolante. Na Galeria, além do delicioso caldo decana com pastéis fritos na hora, tinha o Nero Cabeleireiro mais famoso de BH, tinha a loja de discos do Raul, goleiro do Cruzeiro na época; a loja dos artistas e artesãos e um dia eu entrei pela Rua São Paulo e saí pela Santa Catarina e andei um pouco e me vi meio perdido, não conhecia bem aquela região. Andei um pouco mais e sai perto do Mercado Central onde sempre tinha uma fatia de melancia ou uma talha de abacaxi pra compensar a caminhada, seu piso ainda era de terra batida em vários lugares e a disposição das bancas era um pouco diferente e o trânsito incômodo dos carrinhos de mão de madeira abarrotados de mercadorias espremendo os visitantes nas estreitas vielas. Enquanto isso a majestade do Conjunto JK se impunha ante os visitantes contemplando a praça que leva o nome da minha querida Raul Soares aos seus pés. Voltei pra casa cansado, mas conhecedor dos escondidos de BH, mais lugares desvendados e a promessa de retornar.

Eu a e voltava da capital com certa frequência, a cada vez me adaptava mais, conhecia mais e agora, até alguns bairros como a Serra eram conhecidos, lojas e cinemas mais distantes, lanchonetes e pontos de referência que me ajudavam a me locomover nessa cidade ávida por consumir seus moradores em bocas e túneis sem fim.

Hoje, depois de quase cinquenta e cinco anos, eu vivo nessa cidade que insiste em ser minha, mas não a quero, não posso ser dela, já que tenho uma Terra-Máter que me espera, que guarda meus segredos, meus amores, minhas vontades e que um dia irá me guardar pra sempre em seu seio.

 

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Ecos do Boachá
Sobre Ecos do Boachá
Nélio Agostinho Azevedo, nasci em 1952 em Raul Soares, MG e sou licenciado em História pela UFMG, historiador, poeta, desenhista, ilustrador e técnico em Comunicação Gráfica. Autor do livro Minha vida de Menino. Apaixonado pela literatura universal, pela História do contado dos feitos dos homens e por essa Minas Gerais.
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